Existe um velho ditado que diz que quem pode mais chora menos. Faz todo o sentido do mundo se pensarmos que aquele que tem mais condições tende a se colocar numa situação melhor e ter menos decepções. Por outro lado, aquele que tem menos condições tem como prerrogativa a reclamação. O que pode mais se impõe em relação ao que não pode com ele, restando a este chorar. Simples assim. Lembrei disso hoje quando vi o pífio posicionamento do Liverpool em relação à punição ao Suarez. Lembrei-me também do filme Dogville, em que a protagonista é abusada em todos os sentidos possíveis e não tem como reclamar, uma vez que todos tiram vantagem da sua punição e todos se aproveitam dela. Resta a ela se conformar com a situação (mesmo que inconformada). Não me parece uma situação muito diferente da do Liverpool na Inglaterra, que está sendo transformado - a despeito de sua torcida e com a conivência dos seus dirigentes que acham que acatando desaforos vão conseguir se introduzir no seio podre da politicagem futebolística - em um time pequeno, em quase nada... Talvez, o que falte seja justamente um final como o do filme de Lars von Trier... o que, por si só, é bastante triste (embora redentor).
Há tempos, parece, há uma disjunção entre o espírito da torcida do Liverpool e a da política do clube. A torcida foi sempre a de lutar pelos seus direitos, de lutar contra a injustiça, de revelar a podridão daqueles que estão no poder. O movimento pela justiça e pela apuração dos fatos que tiveram lugar em Hillsborough talvez seja o melhor exemplo disso. O clube, entretanto, tem exagerado na postura demagógica, no apoio a julgamentos e punições que contrariam a noção de justiça. O medo de se questionar a decisão das autoridades instituídas, além disso, parece apontar para uma confusão entre legalidade e justiça. Que a punição do Suarez é legal, no sentido de que foi tomada de acordo com os regulamentos, é um fato, mas justa? Se fosse justa, com certeza, não haveria esse espírito de indignação pairando pelo ar. Se fosse justa, outros teriam sido punidos de maneira semelhante.