Tradução de Fernando Cordeiro
José Mourinho estava irritado e não podia mais conter seu descontentamento. Então, depois de um jogo crucial, ele entrou numa sala de conferência cheia de jornalistas, escolheu suas palavras cuidadosamente e criticou um de seus jogadores.
"O jogo acabou para ele logo depois de ele ter conseguido marcar o gol" disse Mourinho. "Depois disso, nós precisávamos de 11 jogadores no sistema defensivo e só tínhamos 10. Ele precisa melhorar na parte defensiva."
Essas palavras foram proferidas em 3 de outubro de 2004 e se referiam a Joe Cole. O jogador havia acabado de marcar o gol da vitória contra o Liverpool. Cole mereceu alguns elogios, mas o fato de que ele não atuou defensivamente como era esperado levou Mourinho a ser brutalmente honesto sobre seu desempenho.
Você se lembra como então todo mundo achou que sua presença era um sopro de novidade? Mourinho valia ouro naquele momento. Ele tinha acabado de chegar a Inglaterra, mas trazia consigo a verdade e a sua honestidade ganhou a simpatia de todos. Ele era duro, mas era uma máquina de ganhar. O que tinha demais no fato de ele chamar a atenção de um jogador em público?
Agora passemos a fita para frente, para o domingo passado. Mourinho estava irritado e não pôde mais conter sua insatisfação. Então, depois de um jogo crucial, ele entrou numa sala de conferência cheia de jornalistas, escolheu suas palavras cuidadosamente e criticou um de seus jogadores.
"No segundo gol, Nordin Amrabat estava na ponta direita e o nosso lateral esquerdo estava a 25 metros dele ao invés de a 5" disse Mourinho. "Mesmo a 25 metros, você tem que pular e pressionar o cruzamento. Mas, não. Ele esperou. Alguns dos rapazes estão tendo problema em lidar com a negatividade."
Ele estava falando de Luke Shaw. Mourinho estava correto em sua avaliação sobre o gol que levou o Manchester United à derrota contra o Watford. Não estou dizendo que isso deva acontecer toda semana, mas não há nada de errado no fato de um técnico criticar ocasionalmente um jogador para obter dele uma resposta.
Mesmo assim, o comentário em Vicarage Road se tornou um problema para Mourinho, o que demonstra como o futebol se tornou um jogo com dois pesos e duas medidas.
Técnicos não podem mais dizer algo negativo sobre seus jogadores, mesmo quando a crítica é válida, porque eles se condoem.
Não pude acreditar que alguém, em nome de Shaw, disse a um jornal que o lateral esquerdo inglês ficou chateado de Mourinho ter falado sobre ele. Fiquei igualmente estarrecido ao ler uma reportagem dizendo que outros jogadores ficaram "chocados" pelo que foi dito pelo treinador no vestiário.
Esses jogadores representam o Manchester United, um clube no qual a vitória é uma obrigação. Eles não têm feito muita coisa boa nos últimos três anos, mas se tornaram bons em choramingar. Será que isso não diz mais sobre eles do que sobre Mourinho?
Além disso, não vamos pensar que o português é o primeiro técnico a usar uma tática como essa. Lembram disso?
"Nós estávamos jogando muito bem e tudo o que precisávamos era manter a posse de bola, mas Nani decidiu tentar um drible, perdeu a bola e o adversãrio conseguiu um penalti".
E disso?
"Eu substituí Wayne porque o Aston Villa é um time muito rápido, jovem, com muita velocidade e ele não conseguia acompanhá-los."
Esses são dois dos muitos exemplos de Sir Alex Ferguson. A primeira citação é de uma conferência após o United perder para o Chelsea por 5x4 no último minuto de um jogo da Copa da Liga; a segunda ocorreu depois do jogo em que o United ganhou o título em 2013. Se ele achava que a crítica devia ocorrer em público, Ferguson não vacilava.
Não teria sido agradável se Shaw tivesse vindo a público e dito que Mourinho estava certo? Shaw tem como função impedir os cruzamentos e ajudar seu time a não levar gols. Contra Watford e Manchester City ele não fez o seu trabalho direito.
Sua reação, no entanto, leva a especulações de que Mourinho perdeu o vestiário. Isso é absolutamente patético! Ele foi duro em 2006, quando substituiu Shaun Wright-Phillips e Joe Cole com apenas 26 minutos num jogo contra o Fulham. Agora ele é retratado como um tirano.
O que Mourinho fez é tão diferente da atitude de Ronald Koeman? Este substituiu Ross Barkley no intervalo do jogo contra o Sunderland e depois criticou sua péssima performance. Ele substituiu James McCarthy contra o West Brom depois de apenas 38 minutos ao constatar que seu sistema não estava funcionando.
Koeman, contudo, é aplaudido por demonstrar quem é que manda. Os torcedores do Everton elogiam seu treinador porque, dizem, Roberto Matinez jamais faria isso. A realidade é que Koeman conseguiu alguns bons resultados. Se ele tivesse perdido aqueles jogos, a reação não seria a mesma.
Você acha que estou exagerando? Veja o caso do Francesco Guidolin, do Swansea. Ele substituiu Neil Taylor antes do fim do primeiro tempo contra o Chelsea, e depois Ki Sung-yueng contra o Southampton semana passada. Ambos saíram contrariados, não concordando com a substituição e não cumprimentando seu técnico, mas isso significa que foi Guidolin quem perdeu o vestiário.
Eu disse, depois da eliminação da Inglaterra na Euro 2016, que nós estamos criando crianças mimadas e não jogadores de futebol. Os eventos da semana passada só serviram para confirmar minha opinião. Por que há tantos jogadores incapazes de lidar com a crítica?
Gerard Houllier adotava uma técnica quando estava no Liverpool. Ele escolhia uma pessoa e então tirava o couro dela. Se ele escolhia alguém da linha de defesa, nós sabíamos que ele se referia a nós quatro. Era uma mensagem para todos.
Entretanto, quando conversei, neste verão, com Mourinho no Soccer Aid (jogo beneficente), ele me disse que você não pode mais criticar indivíduos em uma reunião. Não podemos ignorar o que aconteceu com o Chelsea no ano passado, quando havia uma distância muito grande entre ele e o time, mas estou seguro de que um técnico do seu gabarito não vai deixar que aquele tipo de situação ocorra novamente.
A crítica a Shaw realizada por Mourinho foi tão negativa? Não. O que, na verdade, isso prova é que nós chegamos a um ponto em que um técnico não pode dizer absolutamente nada em público.
Sempre me perguntam se eu quero me tornar um técnico. Eu nunca vou dizer nunca, mas fico pensando como eu lidaria com situações como a palhaçada em que se transformou a carreira de Yaya Touré no Manchester City.
Por que os jogadores não mais assumem a responsabilidade pelos seus atos? Por que é tão difícil reconhecer que, vez ou outra, você não joga bem e comete erros? Por que ninguém mais respeita o técnico e as suas decisões? Tudo isso me deixa puto.
Fonte: http://www.dailymail.co.uk/sport/article-3804295/Why-t-Jose-Mourinho-criticise-players-public-Sir-Alex-Ferguson-did-it.html







