Gary Neville
Ele ganha £80.000 por semana. Ele devia ser mais consciente.
Ele devia ser um exemplo para as crianças. Isso é o que nós esperamos de nossos
jogadores de futebol. A remuneração que eles recebem demanda um certo nível de
comportamento.
Isso é o que muita gente diria e, por esse lado, eu não
tenho como argumentar. Quando eu consegui meu primeiro contrato, o técnico do
time júnior, Eric Harrison, me disse: “Você é um jogador do Manchester United
agora”. Isso implica que certos padrões são esperados. E, conforme você vai
crescendo, você percebe que estará marcado como um jogador do United – suas atitudes
e comportamentos sempre serão discutidos e questionados.
Mas o que eu nunca vou aceitar é que as pessoas façam uma
relação direta entre o tanto de dinheiro que você ganha e o seu comportamento,
como se um novo contrato de £80.000 por semana fosse automaticamente trazer um
certo nível de responsabilidade.
O seu caráter não é determinado pelo seu saldo bancário. Ele
se desenvolve durante 20 anos de crescimento em contato com diferentes
experiências – algumas boas, outras ruins – através da educação e do
aconselhamento e exemplo dos pais. Um contrato de £4 milhões por ano não muda
isso da noite para o dia.
Conforme eu assistia o debate sobre o impulso de Suarez de
colocar a mão na bola eu detectei uma pressa em julgar um jogador de futebol,
em castigá-lo sem parar para pensar em quão diferente suas experiências de vida
são.
Apesar de ter 25 anos, Suarez está na Inglaterra a apenas
dois. Ele ainda está se adaptando. Esse é um garoto que cresceu jogando bola
nas ruas do Uruguai, que tem experiências e vem de um contexto completamente
diferente dos daqueles que estão lendo esse jornal. Aqueles foram os anos em
que seu caráter foi formado. Então você é trazido para um esporte internacional
com certas expectativas de comportamento e certas regras e regulamentos que
talvez não existissem no lugar e no momento em que você aprendia a jogar.
Na maioria das profissões você constrói a sua carreira aos
poucos, cometendo seus erros quando você ainda é jovem, antes de conseguir
grandes remunerações. Quem não conhece algum jovem que foi repreendido ou
demitido por julgar erroneamente uma situação em seu emprego? Normalmente isso
ocorre no começo da carreira e você deve aprender com isso. No futebol não é
assim: o dinheiro e a reputação vêm ainda quando você é jovem, a maturidade só
vem depois.
É por isso que eu acho que há tantas opiniões apaixonadas
sobre Suarez. Os torcedores adversários o desprezam e ele é um adversário
difícil de se jogar contra. Eu sei que se eu estivesse hoje em campo contra ele
nós nos estranharíamos. Um de nós dois entraria mais forte num carrinho ou
deixaria um cotovelo para atingir o outro. Na melhor das hipóteses nós
discutiríamos em campo alguma hora porque ele é o tipo de jogador que tira você
do sério.
Entretanto, eu digo uma coisa: ele é exatamente o tipo de
jogador que você quer em seu time. Se você é um torcedor, você adoraria torcer
por ele.
Os torcedores do Liverpool cantam: “Nós sonhamos com um time
só de Carraghers”. No entanto, agora, eles podem cantar também sobre um time
cheio de jogadores como Suarez, um guerreiro que sempre está correndo atrás da
bola, um dos jogadores mais habilidosos da Premier League, um cara que, nesta
temporada, é o que mais vezes esteve com a bola dentro da área adversária.
Eu entendo que algumas pessoas nunca vão gostar dele. O
abuso racial que ele cometeu contra Patrice Evra é totalmente inaceitável na
Inglaterra, não importa que ele diga que aquela linguagem é aceita no Uruguai.
Ele, no entanto, cumpriu sua punição por esse grave erro.
Mas e sobre as trapaças [cheating], o cai-cai e a falta de
esportividade? Para mim, nada disso merece o destaque que a gente vem dando. Eu
não vejo nenhum problema com o gol com o uso da mão contra o Mansfield, além do
fato de que foi uma decisão equivocada que se deu contra um clube pequeno e que
pode ter custado a ele um tão desejado jogo de volta. Mas eu nunca ouvi a
palavra trapaça [cheat] sendo usada tão banalmente por ex-jogadores e
comentaristas como nas últimas semanas. Trapaça, para mim, é o doping, é o
arranjo de resultados, são ações tão desprezíveis que destroem a essência do
esporte.
Um toque na mão ou uma falta num jogador na iminência de
fazer o gol faz parte do jogo. As regras preveem essa possibilidade. Você ganha
um pênalti – ou a expulsão ou a falta – e o jogo continua. Todos os esportistas
estão conscientes disso. Isso é duro de aceitar, quando nem tudo parece
acontecer de maneira justa, mas assim também é a vida. O que aconteceu contra o
Mansfield foi uma injustiça, mas não foi uma trapaça.
Quando eu olho para Suarez eu vejo um grande jogador, um
jogador que, você pode ter certeza, irá determinar a preparação de jogo do Man.
United. Isso não é surpresa. Ele é um cara que não se dá por vencido. Nesse
aspecto, ele é melhor que Fernando Torres, que você percebe que se abate quando
as coisas não vão bem. O Suarez não. Ele estará te importunando, lutando o jogo
todo, até mesmo quando toda esperança estiver perdida.
O Liverpool vem passando por tempos difíceis e eu tenho
certeza que os torcedores sentem que ele representa o espírito do clube em
campo, quase tão intensamente quanto Jamie Carragher e Steven Gerrard. Ele pode
ter aprendido a jogar bola nas ruas de Salto e de Montevidéu, mas você quase
pode imaginar ele crescendo nos arredores do Anfield, entre aqueles sobrados
geminados, tamanho é seu comprometimento com o time. Os torcedores também sabem
que o Liverpool vai ter que contratar mais alguns jogadores como ele, se quiser
mantê-lo no clube por um longo tempo.
Suarez cometeu alguns erros e teve momentos dos quais irá se
arrepender. Mas eu também tive alguns desses, especialmente nesse confronto; houve
incidentes em relação aos quais eu fui multado e fui suspenso. É correto que as
autoridades te punam quando você ultrapassa os limites. Com o tempo você vai
aprendendo a controlar seu comportamento e amadurecer. Aos 25 anos, Suarez está
se aproximando de um ponto em que ele precisa garantir que ocorram cada vez
menos momentos controversos.
Hoje, talvez, faça bem a ele prestar atenção no seu oponente
direto. Robin van Persie é o melhor atacante do país. Muitos o chamariam de um
grande profissional. Ano passado ele foi, de longe, a melhor escolha para os prêmios
de Jogador do Ano e da Associação Profissional dos Jogadores de Futebol.
Entretanto, quando ele tinha 20 anos, no Feyenoord, sua
reputação era controversa. Seu técnico, Bert van Marwij, o chamou de “incontrolável”.
Ele brigou em campo com a estrela do time, Pierre van Hooijdonk. Agora, com 29
anos, Van Persie amadureceu.
Levou tempo para que ele se transformasse num profissional
modelo, mas você está se referindo a um ser humano com suas próprias experiências
e motivações, não a um robô. Se Suarez conseguir fazer o mesmo, ele tem
potencial para ser um jogador excepcional.
http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-2261403/Luis-Suarez-nasty-little-player-youd-want-team-Gary-Neville.html?ITO=socialnet-twitter-liverpoolmail&ns_mchannel=rss&ns_campaign=socialnet-twitter-liverpoolmail&utm_medium=twitter&utm_source=twitterfeed
COMENTÁRIO:
Beira o preconceito, mas, ainda assim, é um texto com uma perspectiva mais aberta do que os que normalmente se vê no contexto inglês. Essa "preconceitofobia" e a preocupação extrema com o politicamente correto tendem, pelo menos na minha visão, muitas vezes, a ser muito mais preocupantes do que muitas das manifestações que eles mesmo condenam.
Pensando, no entanto, nas diferenças culturais em relação ao futebol é interessante como, na Inglaterra, eles se centraram no jogador que utilizou a mão - seja nesse caso do jogo contra o Mansfield, seja no antigo, contra Gana -, enquanto no Brasil, pelo menos, me parece que a ênfase seria colocada na atuação do árbitro. Ora, o uso da mão por um jogador de linha é previsto nas regras do futebol, uma vez que a sua punição é estipulada, pensando desse modo, ela é um elemento que faz parte do jogo, embora seja considerado ilegal. Cabe, portanto, ao árbitro puni-la. O maior erro, portanto, seria o do árbitro e não do jogador.
Nesse sentido, creio, esse lance exemplifica duas atitudes diferentes em relação à autoridade, uma, a inglesa, que prega um respeito incondicional, e mesmo servil, às normas; outra, a que imagino ser mais comum no Brasil, de constante provocação, de contínuo questionamento e mesmo de desafio à autoridade que é vista como um orgão repressor, logo, como uma entidade que busca cercear a vida do indivíduo. Se aceita que ela puna, mas se reserva o direito de infrigir as regras, sempre.
COMENTÁRIO:
Beira o preconceito, mas, ainda assim, é um texto com uma perspectiva mais aberta do que os que normalmente se vê no contexto inglês. Essa "preconceitofobia" e a preocupação extrema com o politicamente correto tendem, pelo menos na minha visão, muitas vezes, a ser muito mais preocupantes do que muitas das manifestações que eles mesmo condenam.
Pensando, no entanto, nas diferenças culturais em relação ao futebol é interessante como, na Inglaterra, eles se centraram no jogador que utilizou a mão - seja nesse caso do jogo contra o Mansfield, seja no antigo, contra Gana -, enquanto no Brasil, pelo menos, me parece que a ênfase seria colocada na atuação do árbitro. Ora, o uso da mão por um jogador de linha é previsto nas regras do futebol, uma vez que a sua punição é estipulada, pensando desse modo, ela é um elemento que faz parte do jogo, embora seja considerado ilegal. Cabe, portanto, ao árbitro puni-la. O maior erro, portanto, seria o do árbitro e não do jogador.
Nesse sentido, creio, esse lance exemplifica duas atitudes diferentes em relação à autoridade, uma, a inglesa, que prega um respeito incondicional, e mesmo servil, às normas; outra, a que imagino ser mais comum no Brasil, de constante provocação, de contínuo questionamento e mesmo de desafio à autoridade que é vista como um orgão repressor, logo, como uma entidade que busca cercear a vida do indivíduo. Se aceita que ela puna, mas se reserva o direito de infrigir as regras, sempre.
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