Jamie Carragher anunciou hoje que ele vai se aposentar do
futebol ao fim da temporada – então nós fizemos uma lista dos nossos momentos
favoritos que Carragher protagonizou nesses anos.
Desde a sua estreia contra o Middlesbrough, em janeiro de
1997, até as grandes atuações recentes contra Arsenal e Manchester City, o
garoto de Bootle¹ vem sendo o coração
scouse² do Liverpool por mais de 16 anos.
Assistir um jogo no Anfield, ou mesmo em qualquer outro
estádio da Inglaterra e da Europa nunca mais vai ser a mesma coisa sem os
gritos agudos de Carra, comandando seus companheiros de time desde o primeiro
até o último minuto do jogo.
No entanto, nos sempre seremos capazes de relembrar com
orgulho a extraordinária carreira duma verdadeira lenda dos Reds, que
representa inteiramente o Liverpool.
Aqui vão alguns dos seus melhores momentos...
10. Marcar gol na sua estreia no Anfield
O Liverpool tinha um escanteio do lado esquerdo do Kop. Stig
Inge Bjornebye estava parado com a bola. “Collymore estava na primeira trave,
na pequena área; Wright vinha de trás, na diagonal”, sussurrou Barry Davis
enquanto olhava o pórtico do Anfield, pensando como o Liverpool pretendia desempatar
o jogo contra o Aston Villa de Brian Little.
Bjornebye cruzou a bola com a esquerda para o meio de uma
pequena área lotada. “E Carragher!” clamou o comentarista, veio do nada, o
estreante da casa, Jamie Carragher, invadiu a área do adversário e, com uma
grande cabeçada, colocou a bola no funda da rede de Mark Bosnich.
“Eu tinha me preparado para muitas coisas que podiam
acontecer, mas comemorar um gol não era uma deles”, afirmou Carra. “Você passa anos
sonhando com esse momento, imaginando como vai ser e o que vai sentir. É uma
dessas experiências únicas que você não pode explicar ou entender. Basta dizer
que com 40000 torcedores te apoiando é de arrepiar.”
9. Ligar para Adrian Durham durante seu programa esportivo
“Então passe para o seu próximo assunto porque este está
errado”, rugiu uma familiar voz scouse.
Adrian Durham ficou tão atordoado quanto seus milhares de
ouvintes que tinham ligado seus rádios para escutar seu programa, intitulado
Talksport, em 9 de julho de 2007.
O apresentador vinha falando de forma pouco elogiosa sobre o
jogador de Bootle, descrevendo ele como um “desapontador” por pensar em se
aposentar da seleção inglesa, e Carragher ouvia seu programa no rádio do carro.
Os ouvintes atônitos e Durham imediatamente perceberam que
Carragher não ia deixar que o criticassem injustamente. Sobre isso, Carra
escreveu depois em sua autobiografia: “Eu não tenho nenhum problema com quem
diz que King ou Woodgate eram melhores zagueiros que eu, eu simplesmente não
concordo com isso.”
Outro que parecia não concordar era Cafu, o habilidoso
jogador e lenda do Milan, que, no dia da final da Copa dos Campeões da Europa
em 2005, afirmou: “Ele é o coração do time deles, mais do que o próprio Steve
Gerrard. Carragher é um grande jogador. A Inglaterra deve ter vários grandes
zagueiros se ele não for, automaticamente, titular da seleção.”
8. A família de Carragher
“Não importava como eu estava em campo, Philly Carragher foi
sempre um bem humorado apoio”, disse Carragher. Em 2006, The Independent
concordou com isso: “Quando o assunto é festejar pela Inglaterra, ninguém chega
aos pés do clã dos Carraghers de Liverpool. Há cerca de 20 deles na Alemanha,
liderados pelo pai de Jamie, Philly – ou “Carra” como seu próprio grupo o
chama.
Jamie disse ainda: “Sua influência na minha carreira pode
ser vista por qualquer um. Ele fez de mim um vencedor e esteve ao meu lado a
cada passo do caminho de ser um jogador de sucesso. Me ensinaram que a família
e os amigos são as coisas mais importantes em sua vida.”
7. Liverpool acima da Inglaterra
“O Liverbird derrotou os três leões na luta pela minha
lealdade”, afirmou Carragher. Esse foi um sentimento que Jamie nunca escondeu
durante sua carreira e um dos que mais desagradaram os torcedores de outros
times do país.
Muitos, por toda a Inglaterra, tiveram dificuldades em entender
como um jogador pode colocar seu clube à frente da seleção nacional, mas, para
muitos dos torcedores do Liverpool, não há nem o que pensar.
O fato de Carragher ter sido corajoso o suficiente para
reiterar isso em diversas ocasiões é, com certeza, um dos motivos que aproximam
o número 23 dos torcedores dos Reds. “Não existe esse ideia de “só a Inglaterra”
para a maioria dos jogadores, incluindo muitos dos meus melhores amigos.
Representar seu país é a maior honra, principalmente, na Copa do Mundo. Para
mim, não”, falou Carragher.
Acrescentou ainda: “Toda vez que eu voltava para casa depois
de um jogo ruim, um dos mais inabaláveis e constantes pensamentos que vinham a
minha mente, não importando o quanto o país lamentava, era ‘Pelo menos não foi
com o Liverpool’, eu repetia para mim mesmo, várias vezes. Eu nunca gritei o
hino antes de um jogo. Eu não sei qual é a mensagem que ele tenta passar. ‘God
save the Queen’ não me contagia. Nós cantamos ‘You’ll Never walk alone’, no
Anfield, e todo mundo entende. É um hino de guerra e de apoio ao outro,
enfrentando o que vier pela frente, seja vento, seja chuva”.
6. Caridade e a Fundação 23 [23 Fundation]
Em 2009, Jamie decidiu doar toda a renda da homenagem, feita
pelo Liverpool, a ele para caridade. Entretanto, Carragher, junto com sua
esposa Nicola, achavam que isso não era suficiente e decidiram fazer “algo que
durasse por toda uma vida.”
A 23 Fundation, de Jamie Carragher, procura “ajudar o máximo
de crianças possíveis a terem uma vida melhor.” Ela tenta dar aos garotos da
área de Merseyside uma chance de realizar seus sonhos por meio de organizações
de caridade locais, clubes e iniciativas comunitárias, fornecendo os meios para
que se faça a diferença. Seja ajudando garotos da região a se recuperarem de
doenças, seja fornecendo um ofício para eles atingirem seus objetivos.
A esse respeito, afirma Carragher: “A 23 Fundation promove uma
ideia de coletividade, porque juntos, como uma comunidade, nós podemos alcançar
o que quisermos.”
5. Sua mudança de um jogador coringa para zagueiro
Com a contratação de Rafa Benitez, em 2004, o otimismo
pairava sobre o Anfield e, mais importante, sobre Carragher, com novas
possibilidades. Enquanto o técnico anterior, Gerard Houllier, se recusava a
escalar Carra como um zagueiro (mesmo depois dos protestos do assistente
técnico, Phil Thompson), o recém-chegado Rafa imediatamente reconheceu a
habilidade de Carragher para atuar em sua posição preferida.
O espanhol colocou Jamie no centro da defesa, junto com Sami
Hyypiä, logo no começo da temporada 2004-2005; o resto é história.
“Eu estava curtindo atuar como zagueiro central, atuando com
o mesmo nível de consistência que eu sempre gostei de atuar, mas num papel
muito mais adaptado as minhas características”, afirmou Carra. “A sabedoria
defensiva de Benitez me impressionou muito. Foi um avanço em relação ao modo
como eu jogava antes. Benitez foi o maior influenciador da minha transformação
em zagueiro. Ele tirou o melhor de mim e me transformou num zagueiro de nível
europeu. Eu joguei meu melhor futebol sob seu comando.”
4. Mandar Dudek imitar Grobbelaar
Essa foi um das mais duradouras memórias de uma noite que
reuniu tantos em Istambul. Carra gesticulando com Jerzy Dudek, como se
estivesse possuído, cutucando e empurrando o goleiro enquanto berrava
instruções em seus ouvidos.
Pode não ter parecido o jeito ideal de o jogador polonês se
preparar para uma das mais importantes disputas de pênalti da história do
Liverpool, mas talvez tenha sido a melhor.
“Dudek é um dos caras mais bacanas do futebol. E isso é
ótimo quando você quer sair com alguém para tomar cerveja, mas quando você quer
aquele algo a mais que pode ser a diferença entre ganhar a Copa dos Campeões ou
ir para casa devastado, é hora de sugerir conselhos sobre as artes mais sutis
da astúcia. Antes das penalidades eu me dirigi diretamente até Jerzy e falei
para ele fazer todo o possível para perturbar os cobradores do Milan. Tire a
atenção deles, faça com que se distraiam, mexa com os nervos deles. Não me
importava o que ele tinha feito, eu só queria que ele tornasse tudo ainda mais difícil
para os adversários. Lembre-se de Bruce Grobbelaar nos pênaltis em Roma, em
1984, eu dizia ao meu goleiro.”
3. Garoto nascido e formado em Bootle
Nascido como James Lee Duncan Carrragher, em 28 de janeito
de 1978, Jamie passou boa parte de sua infância na beirada do campo da Sunday
league, assistindo seu pai Philly imitar os maiores técnicos de futebol com seu
time, o Merton Villa.
Jamie nunca esqueceu suas raízes na classe trabalhadora e da sua criação em Bootle. Ele falou: “Eu me sinto abençoado por ter nascido aqui. Eu
tenho orgulho da minha cidade e mais ainda do distrito ao qual ainda pertenço.
Vestir a camisa do Liverpool me obriga não somente a nunca me decepcionar, mas
a fazer minha família, meus amigos, minha cidade e distrito orgulhosos de mim.
Sem isso em perspectiva eu nunca me tornaria um jogador de sucesso. Meu coração
e minha alma foram nascidos e forjados em Bootle. O futebol nunca foi uma fuga
dessas origens, mas um jeito de celebrá-la. Essas pessoas maravilhosas ainda se
lembrar daquele garoto que ficava do lado do campo, com seu pai, todo domingo.
Eu nunca vou virar minhas costas a essas pessoas que me tornaram o que sou.”
2. Quem é maior do que o Liverpool?
Geoff Shreeves, repórter da Sky Sports, entrevistou
Carragher antes de um derby de Merseyside, em 2005. Os dois brincaram e
gargalharam com o fato de que em um certo momento Carragher foi um atacante que
torcia para o Everton e agora era um zagueiro, jogando pelo Liverpool. Então a
conversa trocou de foco, quando a questão passou a ser se Jamie gostaria de
passar toda a sua carreira no Anfield: “É claro que eu gostaria”, foi a
resposta de Carra.
Shreeves: Eu acho que, talvez, algumas pessoas da mídia
estejam coçando suas cabeças porque, como você disse, você tem 26 para 27 anos,
está no auge da sua carreira e poderia ir para um clube maior, onde teria
chance de ganhar mais títulos...
Carragher: Bem, quem é maior do que o Liverpool?
Shreeves: Você não acha que tem alguém maior?
Carragher: O que? Maior? Normalmente? Ou... o que?
Shreeves: Você poderia ir para um time em que teria mais
chance de ganhar títulos na próxima temporada.
Carragher: Não, de jeito nenhum, eu não concordo com isso.
1. Em Istambul
Carragher vai ser mais lembrado pelas suas atuações
defensivas monstruosas em tantas noites de campeonatos europeus pelo Liverpool.
Em Turim, em Milão e Barcelona, assim como em incontáveis emocionantes tardes
no Anfield em que ele anulou Drogba, frustrou os planos de Nedved e venceu
grandes futebolistas como Raúl, Del Piero e Ronaldinho. No entanto, um duelo em
especial, numa noite específica, vai se destacar mais do que qualquer outro na
memória dos fãs de Carra. Sua atuação em Istambul, em maio de 2005, e seus
esforços para parar o Jogador Europeu do Ano, Andriy Shevchenko, pavimentaram
seu lugar como uma lenda do Anfield.
No minuto 81 ele se jogou num brilhante carrinho lateral em
Kaka, que se posicionou para converter um cruzamento de Crespo, isso tudo antes
de ele se atirar à frente de Shevchenko, no minuto 86, quando o ucraniano se
preparava para finalizar o que poderia ter sido o gol da vitória de seu time. “Aqueles
30 minutos de prorrogação foram os mais tensos, cansativos e, por fim,
recompensadores que eu já passei num campo de futebol. No fim de minha carreira,
se houver um momento pelo qual eu serei lembrado, será esse. Durante o segundo
tempo da prorrogação eu me estiquei para interceptar um cruzamento e me deu câimbra.
Nem mesmo quebrar a perna doeria tanto. Foi só por um momento, e logo foi tratada,
mas eu sabia que o meu corpo estava no limite”.
Alguns minutos depois, ele, apesar da dor lancinante, mais
uma vez esticou sua perna. “Assim que eu fiz isso, parecia que o mundo todo
estremecia por mim, admirando o tormento físico que eu passava. Eu não pensei
duas vezes antes de me jogar no caminho, qualquer dor que isso me causasse nos
segundos seguintes não seria maior do que a que eu sentiria se eu tivesse
hesitado e só observado ele marcar o gol. Coragem, caráter, garra, força de
vontade e força física – essas são as virtudes que as pessoas me ensinaram a
ter desde que eu fiz sete anos. Os atacantes podem marcar seus gols decisivos,
os goleiros, suas defesas milagrosas. Uma série de carrinhos em que eu me
coloquei a frente de um atacante do Milan vai ser minha mais querida memória de
uma vida de futebol.”
Fonte: http://www.liverpoolfc.com/news/latest-news/10-reasons-why-we-love-carra
¹ Bootle – cidade do condado de Merseyside
² Scouse – referente à região de Liverpool, a pessoa ou
coisa própria dessa parte da Inglaterra